• Giovanna Oliveira

3 Perguntas: Raquel Cabral - A Comunicação para a Paz

Atualizado: Set 3

Raquel Cabral é doutora em Comunicação Institucional e mestre em Estudos Internacionais de Paz, Conflitos e Desenvolvimento Social pela Universitat Jaume I, na Espanha. Mestre em Comunicação Midiática e graduada em Relações Públicas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Brasil.

Atualmente professora do Departamento de Comunicação na Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP nos cursos de graduação em Relações Públicas e pós-graduação em Comunicação.

Raquel Cabral | Fonte: Acervo Pessoal

Hoje o 3 perguntas é com a Raquel:


1) Decisões como as do STF de bloquear 16 perfis acusados de fake news evidenciam a tênue linha entre o que pode ser considerado como opinião e o que é discurso de ódio. Qual a influência das redes sociais na disseminação deste tipo de conteúdo? Qual a forma mais adequada de agir nestes casos sem ferir a liberdade de expressão?


Vivemos tempos de sociedades e relacionamentos líquidos, que se tornam muito frágeis diante de dinâmicas de poder poderosamente construídas e articuladas. Sem dúvida, uma dessas dinâmicas de poder se refere à produção de discursos, que podem ser potencializados pelas redes e mídias digitais seja para “bem ou mal”. Nesse cenário, podemos observar que as tecnologias da informação e comunicação se tornaram influentes agentes sociais, impactando a opinião pública mediante a propagação de discursos, reflexões e até mesmo desinformação, já que o acesso de determinados grupos de pessoas a essas TICs para a produção de conteúdos próprios se tornou uma verdadeira política de interesses. Para vencer as situações em que esta comunicação pode repercutir negativamente legitimando e naturalizando discursos de ódio, é fundamental que as empresas de tecnologia e mídia adotem uma postura ética e responsável, adotando medidas de governança e aplicando a legislação pertinente que inibe esse tipo de manifestação, vigiando e monitorando constantemente suas redes.

A constituição brasileira estabelece importantes diretrizes sobre o que é discurso de ódio e o que seria liberdade de expressão. Portanto, não apenas as empresas de tecnologia e mídia, mas também os cidadãos devem estar conscientes dos princípios legais constitucionais.

Contudo, para além das leis, está a questão cultural, que também deve ser trabalhada, uma vez que há certas crenças e comportamentos em determinadas culturas que podem naturalizar determinadas expressões preconceituosas, estereótipos e outros tipos de violência que podem se legitimar pela comunicação e cultura. Para isso, a meu ver, é preciso investir amplamente em educação em todas as suas etapas de formação escolar até o ensino superior ou formação profissional, já que as mudanças culturais são lentas e exigem tempo para que se possa romper com determinados pensamentos, crenças e comportamentos que foram historicamente construídos ao longo de séculos.

Ministro do Supremo, Alexandre de Moraes | Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF/Agência Brasil | Fonte: uol.com.br

2) Como tornar a comunicação mais eficaz para reverter os impactos negativos da disseminação de fake news e discursos de ódio? Qual a melhor forma de conscientizar sem excluir da discussão aqueles que são os principais propagadores deste tipo de conteúdo?


De fato, não existe receita mágica ou uma resposta pronta para essa questão. Hoje acredito que esta pode ser a “resposta do milhão”, pois vivemos exatamente um momento em sociedade no qual a desconfiança em relação às instituições de mídia é grande (ver pesquisa Trust Barometer 2020 realizada pela Agência Edelman). Junto à mídia, governos, autoridades púbicas e empresas privadas também caem na desconfiança da opinião pública, pois o cidadão reconhece que está submetido diariamente a estratégias de comunicação que buscam estabelecer e conquistar interesses próprios dessas corporações. Nesse sentido, entendo que há possibilidades alternativas para se tentar romper com certa dominação por parte dessas redes digitais ou “bolhas” de informação, que sempre vão selecionar aquilo que está relacionado a um determinado perfil.

Romper com essa “bolha” é sempre necessário, pois é preciso ter diversidade de acesso à informação a fim de que se possa conhecer distintos pontos de vistas sobre uma mesma questão, por exemplo, ou para se “perceber” as manipulações, as intersubjetividades interpretativas ou as verdades existentes nos fatos e acontecimentos.

Com isso, acredito que a Comunicação para Paz (Communication for Peace) oferece elementos metodológicos muito interessantes para se produzir e analisar uma comunicação que não busca a criação de inimigos, mas que amplia nossa visão sobre os conflitos e a sociedade em que eles ocorrem. Essa perspectiva tem se consolidado com muita força no contexto dos Estudos para Paz (Peace Studies), um campo científico que compreende a violência e a paz como eixos centrais para um debate transdisciplinar e que vai adotar uma dimensão normativa, assumindo-se abertamente como uma ciência comprometida em diminuir o sofrimento humano.


3) Qual o papel da Academia e das ODS (principalmente a 16) no alcance de ecossistemas sustentáveis?

ODS 16: Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis | Fonte: nacoesunidas.org

Entendo que a universidade deve assumir sua função social e papel estratégico como importante agente de transformação, inovação e criatividade voltada para melhorar a qualidade de vida das pessoas e dos ecossistemas de todo planeta. Nessa reflexão, as parcerias institucionais são fundamentais para consolidar projetos interuniversitários ou interinstitucionais que vão buscar respostas para as principais demandas de nossas sociedades. Nesse sentido, entendo que é preciso haver políticas nas instituições de ensino, pesquisa, assim como políticas públicas e também por parte da iniciativa privada que possam garantir essas alianças para troca de experiências e desenvolvimento de projetos conjuntos que possam convergir em soluções criativas e sustentáveis. Para isso, penso que a Agenda 2030 oferece diretrizes importantes para que as organizações públicas, privadas ou do terceiro setor possam se engajar nessa mobilização social. Entretanto, necessitamos de agentes articuladores e estratégicos capazes de promover e empreender os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nessas organizações. Ainda há muito a ser feito para conscientizar, sensibilizar, orientar e educar sobre a Agenda 2030. Precisamos de mais agentes da mudança que possam nos ajudar nesse grande desafio!


Você pode assistir ao vídeo da Raquel no TEDxUNESPBauru aqui.


Acesse o estudo Edelman Trust Barometer 2020 aqui.

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